Luiza David Maria Mendes, diretora de Projetos da Lumma Construtora | luiza@lummaconstrutora.com.br
Durante muitos anos, o mercado imobiliário brasileiro concentrou sua atenção nos mesmos destinos. As grandes capitais e os principais balneários reuniam investimentos, lançamentos e compradores. Essa lógica, porém, começou a mudar. Hoje, um dos movimentos mais relevantes do setor ocorre justamente nas cidades de médio porte, que passaram a reunir atributos cada vez mais valorizados por moradores, investidores e incorporadoras.
Essa mudança não acontece por acaso. Ela resulta da combinação de transformações demográficas, novas formas de trabalho e mudanças no comportamento de quem compra um imóvel. O trabalho remoto reduziu a dependência dos grandes centros urbanos. A consolidação da locação de curta duração ampliou o potencial econômico da segunda moradia. Ao mesmo tempo, qualidade de vida, mobilidade, contato com a natureza e infraestrutura passaram a pesar mais nas decisões de quem escolhe onde viver ou investir.
Santa Catarina traduz esse movimento de forma bastante clara. O Censo Demográfico de 2022 mostrou que o estado registrou um saldo positivo de cerca de 354 mil novos moradores entre 2017 e 2022, liderando a migração interna no país. Mais recentemente, o IBGE apontou um crescimento populacional de 1,60% entre 2024 e 2025, um dos maiores índices no país.
Esse fluxo consolidou Florianópolis como um dos principais polos de atração do país, mas também acelerou um efeito esperado: a valorização dos mercados mais maduros. Segundo o CRECI-SC, com base no Índice FipeZap, Santa Catarina concentra quatro das cinco cidades com o metro quadrado mais valorizado do Brasil. À medida que os preços avançam e a disponibilidade de áreas diminui, cresce o interesse por municípios que ainda oferecem espaço para expansão planejada, infraestrutura em desenvolvimento e uma relação mais equilibrada entre custo e qualidade de vida.
Essa percepção também se reflete nos indicadores do setor. O Índice de Demanda Imobiliária (IDI Brasil), desenvolvido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção em parceria com o Ecossistema Sienge, CV CRM e Grupo Prospecta, mostra o fortalecimento de Florianópolis entre os mercados mais atrativos do país e evidencia o avanço de cidades próximas aos grandes eixos urbanos. Pesquisadores chamam esse fenômeno de interiorização migratória: pessoas deixam de buscar apenas os grandes centros e passam a optar por municípios capazes de oferecer infraestrutura, mobilidade e qualidade urbana sem abrir mão da conexão com polos econômicos.
Essa leitura ajuda a explicar por que cidades como Laguna começam a ocupar um novo espaço no mercado imobiliário catarinense. Com patrimônio histórico preservado, litoral, vocação turística e uma malha urbana ainda em consolidação, o município reúne características que dificilmente se reproduzem em mercados mais maduros. Não por acaso, projetos inspirados nos princípios do novo urbanismo começam a surgir justamente em regiões com potencial para crescer de forma organizada.
Mais do que construir empreendimentos, o desafio passa a ser contribuir para o desenvolvimento de cidades capazes de integrar moradia, serviços, comércio, espaços públicos e mobilidade. Essa visão responde a um consumidor mais atento, que busca qualidade urbana tanto quanto localização.
O mercado imobiliário sempre acompanhou o crescimento das cidades. Agora, começa a acontecer o inverso: projetos estruturados passam a orientar a forma como esses territórios evoluem. Para quem incorpora pensando nas próximas décadas, talvez a principal pergunta já não seja onde o mercado está consolidado, mas onde a próxima cidade começa a ser construída.

